segunda-feira, 29 de junho de 2026

O terror inominável

 

H.P. Lovecraft, autor de inúmeras obras sobre terror cósmico, tinha um medo muito evidente: o medo da insignificância.


Em suas obras, ele aborda criaturas antigas, de poder e conhecimento muito além da mente humana, que mostram que o ser humano não é o ápice da criação, muito pelo contrário.

Em seus contos, o ser humano é apenas um acidente cosmológico, insignificante em sua essência, diminuto em sua duração, imperceptível em suas ações.

A respeito da ciência, ele escreveu na sua mais conhecida obra — O Chamado de Cthulhu — a seguinte descrição:

As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas”.

Seus grandes anciões eram, em parte, metáforas para o desconhecido e refletiam seus medos e inseguranças pessoais, transformando o terror inominável de nossa pequenez em entidades físicas inconcebíveis para a débil mente humana.

Impressionante como, mesmo antes de ter lido suas obras, eu já discordava disso completamente.

Uma das mais belas reflexões escritas sobre a posição do homem na escala cósmica foi feita por Carl Sagan em seu livro “Pálido ponto Azul”.  Essa reflexão foi realizada a partir de uma foto da Terra tirada pela sonda Voyager 1. Nesta foto nosso importante planeta aparece como um ponto azul, quase sem definição, suportado por feixe de luz produzido pela refração da luz na câmera.

Essa pequenez não me é assustadora.

Me é grandiosa.

Libertadora até...

O infinito temido por Lovecraft me traz a profunda sensação de reverência. Contemplar o universo indiferente e ainda ser parte dele — uma parte pequena e efêmera — me permite pensar na profundidade da vida e nos sentidos que damos a ela.

A sensação do numinoso...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Tesseract

 

A memória científica mais antiga que eu tenho é o Tesseract. Não a joia do infinito dos filmes da Marvel, mas o hiper cubo 4D explicado por Carl Sagan na série Cosmos.

Na minha memória, a série passava nas manhãs de domingo na Rede Globo de televisão, acredito que por volta do ano de 1982, e eu acordava com meus míseros oito anos de idade para assisti-la.

Essa não é só a memória científica mais antiga que eu tenho, mas é uma das memórias mais antigas da minha vida.

O que será que isso diz sobre mim e sobre minha carreira como professor?

Nos textos anteriores, eu utilizei termos como “amor ao conhecimento” e “magia” para falar sobre o ensino de física. Bom, essa memória, sem dúvida, é repleta de amor ao conhecimento e de magia...

De outra vez, eu já adulto, de férias, estava na rua da minha casa enquanto as crianças dos vizinhos jogavam bola e pulavam. Não me lembro como aconteceu, mas em determinado momento a bola era o Sol e as crianças os planetas, e eu explicava para elas o movimento de translação e de rotação da Terra. Ali também havia magia...

No primeiro caso. eu era a plateia, e o grande mago Sagan mostrava sua magia na tela da minha televisão de tubo. No segundo caso eu era o mago, e a magia ocorria em torno de uma bola transformada em estrela.

O que havia em comum nos dois eventos?

Certo! Eu estava lá nos dois casos, mas isso é só a coincidência que me permite relatá-los. Não é isso que é importante.

Nos dois casos não havia sala de aula, não havia currículo, não havia cobranças, sequer havia a necessidade de cada evento ocorrer. Mas ocorreram e foram incríveis.

Em algum momento de nossas vidas de professores nós fomos tocados por estes sentimentos, pelo menos eu espero que vocês tenham tido este privilégio, e talvez a experiência tenha se perdido no cinismo de uma vida em sala de aula.

No livro “Contato”, também de Carl Sagan, a personagem Eleanor Arroway, revela como dentro da ciência existe a sensação do numinoso — uma experiência com o misterioso e o transcendental, que revela temor e reverência — que encanta o cientista.

Talvez seja a hora de nós professores resgatarmos essa sensação em nossas vidas, e transmiti-la adiante.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Bloquinho, meu bloquinho...

Estou tentando me lembrar por que eu gostava tanto do meu bloquinho descendo o plano inclinado...

Nos anos nos quais eu dava aulas em cursinho eu tinha um objetivo muito claro à frente: fazer meu estudante passar no vestibular.

Simples, direto, sem questionamentos.


 

Mesmo assim eu tentava trabalhar do meu jeito. Lembro-me que certa vez tínhamos que resolver um problema na lousa e eu passei um tempo explicando o seu enunciado. Deixando claro não só o fenômeno físico que estava ocorrendo como também o cerne da pergunta. Quando terminei essa parte da explicação, eu peguei o giz para começar a resolvê-lo com os estudantes, mas eles não deixaram.

Todos pegaram seus cadernos e passaram a resolver o exercício sem minha ajuda. Utilizaram as equações corretas — o tema era resistência elétrica, se me lembro bem — e em poucos minutos o exercício estava resolvido.

Uma das alunas comentou que toda vez que eu explicava um problema, e traduzia aquele enunciado para uma linguagem mais fenomenológica, a solução se tornava óbvia para eles. Claro que eles davam suas cabeçadas, afinal, estavam aprendendo, mas, geralmente, chegavam na resposta correta.


Havia uma certa magia naquele processo, que não consigo descrever sem parecer piegas.

Quando foi que isso se perdeu?

Quando a magia se tornou burocracia?

Foi um processo muito pessoal que começou tempos antes de eu vir para a URE.

Não é surpresa para ninguém que o ensino, principalmente o público, está sucateado, e o quanto isso afeta a saúde do professor. Sem dúvida isso me afetava também. Mas me afetava de maneira diferente do que afetava alguns de meus colegas: no lugar do conformismo havia a revolta.

Muita revolta! Via um currículo cada vez mais engessado, mais limitado e mais vazio ser implementado dia após dia, e não havia nada que eu pudesse fazer além de me revoltar.

Mas e hoje? Será que eu desisti? Me juntei à imensa massa de professores tristes e doentes que perambulam como zumbis em nossas escolas? Ou será que o simples fato de eu estar realizando estas reflexões mostra que eu ainda resisto? Que o que preciso é encontrar um novo caminho?

Talvez meu problema não seja o bloquinho no final das contas, e sim tudo que ele representa...

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Por que ensinar Física?

 

BNCC.

Letramento científico.

Cidadania.

Vamos e convenhamos que tudo isso é um saco.

Talvez até justifique por que nós, como sociedade, devemos ensinar Física e ciências para nossos jovens, mas e você, e eu, professor? Por que fazemos isso?

Outro dia estava vendo um exercício sobre plano inclinado: bloquinho escorregando, partindo do repouso, força de atrito etc. A única coisa que consegui pensar foi: Pqp! Faz trinta anos que este bloquinho está escorregando este maldito plano inclinado!

Será que temos noção de como isso é chato? Eu vejo vários vídeos no YouTube  feito por professores, muito bons por sinal, resolvendo este tipo de exercícios com uma empolgação que chega a me dar asco.

Foi isso que nos levou a estudar física? Passar quatro anos sentado nas cadeiras de uma universidade para resolver esses exercícios tristes? Ou será que teve outro motivo? E se foi, qual era mesmo?

Lembrei de uma aula na faculdade na qual o professor, na primeira aula do semestre, propôs a seguinte pergunta — ou algo muito próximo: Por que você entrou no curso de física?

Não lembro da minha resposta. Na realidade eu não lembro de nenhuma das respostas. Mas lembro perfeitamente do comentário do professor sobre elas:

—Ninguém respondeu “amor ao conhecimento”! Isso é a primeira coisa que a universidade mata.

Outra memória da faculdade é a seguinte: estávamos para entrar na aula de física moderna. Uma matéria muito difícil, ministrada por uma professora bem rigorosa. Um de meus colegas de sala reclamou do motivo de estarmos tendo aquelas aulas, já que, nas palavras dele — Não vamos ensinar isso na escola.

Fiquei sem resposta. Não porque eu concordasse com ele, mas porque eu fiquei imaginando o que ele estava fazendo ali. Se nem ele, que supostamente gostava de física o suficiente para entrar em uma faculdade, gostava de aprender física, imagine nossos alunos?

(Em outro momento do curso, um colega alegou que os nossos alunos deveriam aprender certo conteúdo porque ia cair na prova, e isso já seria motivo o suficiente).

Voltando ao título da postagem: Por que ensinar física?

Não tenho a resposta. Nem foi o objetivo desta reflexão encontrar essa resposta. Meu objetivo é encontrar, com o tempo, uma resposta que faça sentido para mim. Se é que ela existe...