segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Tesseract

 

A memória científica mais antiga que eu tenho é o Tesseract. Não a joia do infinito dos filmes da Marvel, mas o hiper cubo 4D explicado por Carl Sagan na série Cosmos.

Na minha memória, a série passava nas manhãs de domingo na Rede Globo de televisão, acredito que por volta do ano de 1982, e eu acordava com meus míseros oito anos de idade para assisti-la.

Essa não é só a memória científica mais antiga que eu tenho, mas é uma das memórias mais antigas da minha vida.

O que será que isso diz sobre mim e sobre minha carreira como professor?

Nos textos anteriores, eu utilizei termos como “amor ao conhecimento” e “magia” para falar sobre o ensino de física. Bom, essa memória, sem dúvida, é repleta de amor ao conhecimento e de magia...

De outra vez, eu já adulto, de férias, estava na rua da minha casa enquanto as crianças dos vizinhos jogavam bola e pulavam. Não me lembro como aconteceu, mas em determinado momento a bola era o Sol e as crianças os planetas, e eu explicava para elas o movimento de translação e de rotação da Terra. Ali também havia magia...

No primeiro caso. eu era a plateia, e o grande mago Sagan mostrava sua magia na tela da minha televisão de tubo. No segundo caso eu era o mago, e a magia ocorria em torno de uma bola transformada em estrela.

O que havia em comum nos dois eventos?

Certo! Eu estava lá nos dois casos, mas isso é só a coincidência que me permite relatá-los. Não é isso que é importante.

Nos dois casos não havia sala de aula, não havia currículo, não havia cobranças, sequer havia a necessidade de cada evento ocorrer. Mas ocorreram e foram incríveis.

Em algum momento de nossas vidas de professores nós fomos tocados por estes sentimentos, pelo menos eu espero que vocês tenham tido este privilégio, e talvez a experiência tenha se perdido no cinismo de uma vida em sala de aula.

No livro “Contato”, também de Carl Sagan, a personagem Eleanor Arroway, revela como dentro da ciência existe a sensação do numinoso — uma experiência com o misterioso e o transcendental, que revela temor e reverência — que encanta o cientista.

Talvez seja a hora de nós professores resgatarmos essa sensação em nossas vidas, e transmiti-la adiante.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Bloquinho, meu bloquinho...

Estou tentando me lembrar por que eu gostava tanto do meu bloquinho descendo o plano inclinado...

Nos anos nos quais eu dava aulas em cursinho eu tinha um objetivo muito claro à frente: fazer meu estudante passar no vestibular.

Simples, direto, sem questionamentos.


 

Mesmo assim eu tentava trabalhar do meu jeito. Lembro-me que certa vez tínhamos que resolver um problema na lousa e eu passei um tempo explicando o seu enunciado. Deixando claro não só o fenômeno físico que estava ocorrendo como também o cerne da pergunta. Quando terminei essa parte da explicação, eu peguei o giz para começar a resolvê-lo com os estudantes, mas eles não deixaram.

Todos pegaram seus cadernos e passaram a resolver o exercício sem minha ajuda. Utilizaram as equações corretas — o tema era resistência elétrica, se me lembro bem — e em poucos minutos o exercício estava resolvido.

Uma das alunas comentou que toda vez que eu explicava um problema, e traduzia aquele enunciado para uma linguagem mais fenomenológica, a solução se tornava óbvia para eles. Claro que eles davam suas cabeçadas, afinal, estavam aprendendo, mas, geralmente, chegavam na resposta correta.


Havia uma certa magia naquele processo, que não consigo descrever sem parecer piegas.

Quando foi que isso se perdeu?

Quando a magia se tornou burocracia?

Foi um processo muito pessoal que começou tempos antes de eu vir para a URE.

Não é surpresa para ninguém que o ensino, principalmente o público, está sucateado, e o quanto isso afeta a saúde do professor. Sem dúvida isso me afetava também. Mas me afetava de maneira diferente do que afetava alguns de meus colegas: no lugar do conformismo havia a revolta.

Muita revolta! Via um currículo cada vez mais engessado, mais limitado e mais vazio ser implementado dia após dia, e não havia nada que eu pudesse fazer além de me revoltar.

Mas e hoje? Será que eu desisti? Me juntei à imensa massa de professores tristes e doentes que perambulam como zumbis em nossas escolas? Ou será que o simples fato de eu estar realizando estas reflexões mostra que eu ainda resisto? Que o que preciso é encontrar um novo caminho?

Talvez meu problema não seja o bloquinho no final das contas, e sim tudo que ele representa...

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Por que ensinar Física?

 

BNCC.

Letramento científico.

Cidadania.

Vamos e convenhamos que tudo isso é um saco.

Talvez até justifique por que nós, como sociedade, devemos ensinar Física e ciências para nossos jovens, mas e você, e eu, professor? Por que fazemos isso?

Outro dia estava vendo um exercício sobre plano inclinado: bloquinho escorregando, partindo do repouso, força de atrito etc. A única coisa que consegui pensar foi: Pqp! Faz trinta anos que este bloquinho está escorregando este maldito plano inclinado!

Será que temos noção de como isso é chato? Eu vejo vários vídeos no YouTube  feito por professores, muito bons por sinal, resolvendo este tipo de exercícios com uma empolgação que chega a me dar asco.

Foi isso que nos levou a estudar física? Passar quatro anos sentado nas cadeiras de uma universidade para resolver esses exercícios tristes? Ou será que teve outro motivo? E se foi, qual era mesmo?

Lembrei de uma aula na faculdade na qual o professor, na primeira aula do semestre, propôs a seguinte pergunta — ou algo muito próximo: Por que você entrou no curso de física?

Não lembro da minha resposta. Na realidade eu não lembro de nenhuma das respostas. Mas lembro perfeitamente do comentário do professor sobre elas:

—Ninguém respondeu “amor ao conhecimento”! Isso é a primeira coisa que a universidade mata.

Outra memória da faculdade é a seguinte: estávamos para entrar na aula de física moderna. Uma matéria muito difícil, ministrada por uma professora bem rigorosa. Um de meus colegas de sala reclamou do motivo de estarmos tendo aquelas aulas, já que, nas palavras dele — Não vamos ensinar isso na escola.

Fiquei sem resposta. Não porque eu concordasse com ele, mas porque eu fiquei imaginando o que ele estava fazendo ali. Se nem ele, que supostamente gostava de física o suficiente para entrar em uma faculdade, gostava de aprender física, imagine nossos alunos?

(Em outro momento do curso, um colega alegou que os nossos alunos deveriam aprender certo conteúdo porque ia cair na prova, e isso já seria motivo o suficiente).

Voltando ao título da postagem: Por que ensinar física?

Não tenho a resposta. Nem foi o objetivo desta reflexão encontrar essa resposta. Meu objetivo é encontrar, com o tempo, uma resposta que faça sentido para mim. Se é que ela existe...

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Apenas um texto

 

Hoje eu abri o link deste meu antigo blog e li tudo o que escrevi nos últimos 15 anos. Por quê? Não sei.

Em 2020, saí da sala de aula e passei a atuar na área de formação de professores, dentro da diretoria de ensino (agora chamada URE) da minha cidade. Depois de três anos trabalhando com física em particular e ciências em geral, fui transferido para a área de tecnologia.

Isso porque, aqui no estado de São Paulo, a partir do segundo semestre de 2023, foi implementado um novo currículo de tecnologia nas escolas estaduais. Uma empresa particular foi contratada para desenvolver os conteúdos destinados aos estudantes e ministrá-los por meio de uma plataforma on-line. A função do professor se resumia — ou melhor, se limitava — a mediar o curso para os estudantes. Na prática, ele se tornou um fiscal de acesso com poder de dar nota.

E eu? Eu me tornei o fiscal dos fiscais. Consultava semanalmente tabelas de acesso e de resultados, além de conversar — ou cobrar — professores e coordenadores nas escolas.

Ah! Por que eu? Porque o novo currículo foca em linguagens de programação e de marcação (como HTML), e eu era o único profissional do setor que sabia programar. Logo…

Voltando.

Além de fiscal, também atuei na formação dos professores — na medida do possível. Mas, de fato, a maioria não tem conhecimento na área e acaba assumindo as aulas por falta de opção ou até mesmo como castigo. Quando somamos isso ao fato de que o processo de atribuição de aulas parece ter sido cuidadosamente planejado para dar errado, temos todos os ingredientes necessários.

Enfim, nesse meio tempo eu oscilei entre períodos de pouco contato com a física e períodos sem nenhum contato. Tento estudar para me manter afiado, mas, trabalhando com outros temas, não sobra muita energia.

Lendo o blog hoje, lembrei um pouco da energia que eu tinha para desenvolvê-lo apenas pelo prazer de fazê-lo. Não que ele não fosse útil, mas tudo que eu produzia ali poderia fazer em outro lugar, ou simplesmente não fazer. Seria muito mais fácil.

Mas eu gostava de fazer. Mesmo com uma agenda sobrecarregada, correção de provas e preparação de aulas, eu gostava de escrever no blog. Toda vez que tinha um momento disponível, trabalhava em algum resumo, melhorava, expandia. Lembro-me de que, durante os anos em que dei aula para a EJA (entre 2014 e 2019), eu sempre atualizava os materiais semestralmente e os postava.

Quando fui para a URE, procurei outras maneiras de me manter ativo: postei alguns materiais novos, disponibilizei minha dissertação, meu RPG escolar e alguns de seus desdobramentos, escrevi algumas reflexões. Mas, em algum momento — abril de 2022 — eu parei completamente de mexer no blog.

De alguma maneira, ele tinha perdido o sentido para mim. Mas, na verdade, isso é apenas um efeito colateral de um problema muito maior...