A memória científica mais antiga que eu tenho é o Tesseract. Não a joia do infinito dos filmes da Marvel, mas o hiper cubo 4D explicado por Carl Sagan na série Cosmos.
Na minha memória, a série passava nas manhãs de domingo na Rede Globo de televisão, acredito que por volta do ano de 1982, e eu acordava com meus míseros oito anos de idade para assisti-la.
Essa não é só a memória científica mais antiga que eu tenho, mas é uma das memórias mais antigas da minha vida.
O que será que isso diz sobre mim e sobre minha carreira como professor?
Nos textos anteriores, eu utilizei termos como “amor ao conhecimento” e “magia” para falar sobre o ensino de física. Bom, essa memória, sem dúvida, é repleta de amor ao conhecimento e de magia...
De outra vez, eu já adulto, de férias, estava na rua da minha casa enquanto as crianças dos vizinhos jogavam bola e pulavam. Não me lembro como aconteceu, mas em determinado momento a bola era o Sol e as crianças os planetas, e eu explicava para elas o movimento de translação e de rotação da Terra. Ali também havia magia...
No primeiro caso. eu era a plateia, e o grande mago Sagan mostrava sua magia na tela da minha televisão de tubo. No segundo caso eu era o mago, e a magia ocorria em torno de uma bola transformada em estrela.
O que havia em comum nos dois eventos?
Certo! Eu estava lá nos dois casos, mas isso é só a coincidência que me permite relatá-los. Não é isso que é importante.
Nos dois casos não havia sala de aula, não havia currículo, não havia cobranças, sequer havia a necessidade de cada evento ocorrer. Mas ocorreram e foram incríveis.
Em algum momento de nossas vidas de professores nós fomos tocados por estes sentimentos, pelo menos eu espero que vocês tenham tido este privilégio, e talvez a experiência tenha se perdido no cinismo de uma vida em sala de aula.
No livro “Contato”, também de Carl Sagan, a personagem Eleanor Arroway, revela como dentro da ciência existe a sensação do numinoso — uma experiência com o misterioso e o transcendental, que revela temor e reverência — que encanta o cientista.

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