Estou tentando me lembrar por que eu gostava tanto do meu bloquinho descendo o plano inclinado...
Nos anos nos quais eu dava aulas em cursinho eu tinha um objetivo muito claro à frente: fazer meu estudante passar no vestibular.
Simples, direto, sem questionamentos.
Mesmo assim eu tentava trabalhar do meu jeito. Lembro-me que certa vez tínhamos que resolver um problema na lousa e eu passei um tempo explicando o seu enunciado. Deixando claro não só o fenômeno físico que estava ocorrendo como também o cerne da pergunta. Quando terminei essa parte da explicação, eu peguei o giz para começar a resolvê-lo com os estudantes, mas eles não deixaram.
Todos pegaram seus cadernos e passaram a resolver o
exercício sem minha ajuda. Utilizaram as equações corretas — o tema era
resistência elétrica, se me lembro bem — e em poucos minutos o exercício estava
resolvido.
Uma das alunas comentou que toda vez que eu explicava um problema, e traduzia aquele enunciado para uma linguagem mais fenomenológica, a solução se tornava óbvia para eles. Claro que eles davam suas cabeçadas, afinal, estavam aprendendo, mas, geralmente, chegavam na resposta correta.
Havia uma certa magia naquele processo, que não consigo descrever sem parecer piegas.
Quando foi que isso se perdeu?
Quando a magia se tornou burocracia?
Foi um processo muito pessoal que começou tempos antes de eu vir para a URE.
Não é surpresa para ninguém que o ensino, principalmente o público, está sucateado, e o quanto isso afeta a saúde do professor. Sem dúvida isso me afetava também. Mas me afetava de maneira diferente do que afetava alguns de meus colegas: no lugar do conformismo havia a revolta.
Muita revolta! Via um currículo cada vez mais engessado, mais limitado e mais vazio ser implementado dia após dia, e não havia nada que eu pudesse fazer além de me revoltar.
Mas e hoje? Será que eu desisti? Me juntei à imensa massa de professores tristes e doentes que perambulam como zumbis em nossas escolas? Ou será que o simples fato de eu estar realizando estas reflexões mostra que eu ainda resisto? Que o que preciso é encontrar um novo caminho?
Talvez meu problema não seja o bloquinho no final das contas, e sim tudo que ele representa...

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